Água: quantos copos você precisa beber por dia??

06/12/2010
Sempre se ouviu dizer que oito copos - cerca de dois litros - diários são o mínimo para manter o corpo hidratado. mas novas pesquisas sugerem que esse número é muito alto

Desde os anos 1990, profissionais da saúde em todo o mundo propagam a idéia de que o consumo de oito copos de água por dia ajuda o organismo a se manter hidratado, a eliminar toxinas e a perder peso. A "ode ao líquido" ainda completa que beber água é bom para curar dor de cabeça e manter a pele tonificada, prevenindo o aparecimento de rugas. Tudo isso porque estudiosos constataram que um adulto saudável, de porte médio, tem uma perda diária de dois litros de líquidos. Para deduzir que repor essa medida era o ideal para a ingestão foi um pulo. Agora, uma nova pesquisa realizada por especialistas da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, desmitifica os supostos poderes da água e defende que há poucas evidências de que o alto consumo do líquido traga benefícios reais à saúde.
Os médicos Dan Negoianu e Stanley Goldfarb revisaram várias pesquisas publicadas sobre o assunto. Eles observaram que pessoas que vivem em climas quentes e secos têm mais necessidade de beber água, assim como os atletas. Pacientes com alguns tipos de doença também se beneficiam da ingestão do líquido, mas, segundo um porta-voz dos cientistas, "não há dados que comprovem tais benefícios em pessoas com a saúde em equilíbrio".

Apesar de a água ajudar o corpo a se manter hidratado, nada prova que sua ingestão forçada - quando a pessoa não sente sede - previne o organismo contra a desidratação. Os cientistas ainda analisaram a teoria de que, ao beber água, a pessoa se sentiria satisfeita, comeria menos e perderia peso. Também nenhuma conclusão consistente foi encontrada. No entanto, o golpe mais duro (pelo menos para as mulheres) tenha sido a constatação de que nenhum benefício clínico comprovado mostrou que a água seria um elixir para manter a pele tonificada.


MITOS E VERDADES
Beber água durante as refeições faz mal?
Ingerir um pouco de líquido durante as refeições não faz tão mal quanto se prega, desde que não seja um hábito freqüente ou, se for, que não ultrapasse a quantidade de 200 ml. Porém, quem costuma ingerir muitas fibras deve evitar, pois a fibra vai passar mais rapidamente pelo intestino, diminuindo sua função.
Em quais casos a ingestão de líquido e sólido, juntos, é prejudicial?
Quem possui problemas como refluxo, esofagite, gastrite, hérnia de hiato e outros problemas na mucosa gástrica não deve ingerir líquidos durante as refeições. "O ideal mesmo é que se consumam líquidos uns 30 minutos após o término da refeição", afirma a nutricionista Milana Dan.
Posso beber água ao praticar exercícios físicos?
No caso da prática de atividade física, o mais correto é consumir água antes, durante e depois do exercício. "Beber água apenas após o término do exercício não é recomendado, uma vez que durante a prática há muita perda de líquido e seu organismo ficará debilitado até que o exercício termine", recomenda Milana.
Muitas pessoas alegam nunca sentir sede. o que elas devem fazer?
Os médicos ouvidos nessa matéria foram unânimes em afirmar que todo mundo sente sede, sim, e isso acontece quando o organismo precisa repor a água perdida. Algumas pessoas têm a idéia de não sentir sede porque, muitas vezes, não estão acostumadas a tomar água pura. Mas, toda vez que tomam qualquer outro líquido como refrigerante, suco, chá ou café, estão repondo o líquido de que o corpo precisa, e a "vontade" de ingerir essas bebidas é a manifestação da sede.


Ingestão forçada
Muita gente procura consumir os dois litros de água "recomendados" diariamente, mas nem todos conseguem. Para quem não completava a tarefa, a culpa era a parceira do final do dia, uma vez que o rim não funcionaria direito, a pele ficaria ressecada e os quilos indesejados permaneceriam. Saber que tudo isso não passa de uma tremenda especulação traz um alívio danado.

Segundo o clínico geral Paulo Olzon Monteiro da Silva, chefe da disciplina de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a quantidade adequada para cada um é variável. "Devemos beber água sempre que sentirmos sede. Não acontece de ingerirmos menos líquido de que precisamos, exceto em casos especiais, como febre muito alta ou coma", afirma o médico.

A quantidade ideal de ingestão depende de algumas variáveis, por exemplo, se o tempo está seco, se está quente ou frio, se a umidade do ar está baixa, se a pessoa faz alguma atividade física ou não. E tudo isso varia de pessoa para pessoa. Por exemplo, quem sua muito, durante o verão, vai precisar de mais água do que outra pessoa que sua menos, na mesma época. Como saber, então, o quanto ingerir de liquido por dia? Fácil: beba água sempre que sentir sede.

Existe uma região no cérebro - muito inteligente - chamada hipotálamo. É lá que o organismo "sente" a concentração do sangue e a necessidade, ou não, de ingerir líquidos. A sede é o aviso do hipotálamo de que está na hora de beber água. "Nós temos um controle automático, e muito eficiente, do quanto devemos ingerir de água. Nosso organismo controla sozinho essa necessidade", enfatiza Olzon.

  
É QUASE IMPOSSÍVEL ACREDITAR QUE BEBER MUITA ÁGUA POSSA TRAZER CONSEQÜÊNCIAS DESAGRADÁVEIS AO ORGANISMO. MAS O EXCESSO PODE DESEQUILIBRAR A QUANTIDADE DE SÓDIO NO SANGUE E DESREGULAR OS RINS.



Substitutos da água
Se até aqui o leitor que não conseguia ingerir os oito copos de água impostos já estava contente, arriscamos afirmar que sua felicidade dobrará com a afirmação seguinte. O médico da Unifesp garante: não há nada de errado em tomar água apenas quando se sente sede. "Você já viu algum outro animal tomar água sem sentir sede? A natureza é sábia. Quando o organismo precisa de hidratação, sentimos sede, simples assim", explica.

A sede é um sinal de que o corpo necessita de água, mas não necessariamente que a pessoa esteja desidratada. Caso ela não venha a ingerir a quantidade necessária do líquido, aí, sim, poderá se desidratar. E a pessoa com desidratação terá, obviamente, muita sede.

Ao ingerir líquido quando sentimos sede, repomos o que o organismo precisa. E não importa se na forma de água mesmo ou de sucos e leite. Só não vale contar a cervejinha nessa reposição, pois o álcool, pelo contrário, rouba a água do organismo.

É importante alertar que também repomos líquidos que o corpo necessita por meio da alimentação. Em maior ou menor grau, todos os alimentos sólidos contêm água. "As frutas, em geral, são as maiores fontes, mas, quando cozinhamos arroz, feijão ou legumes, por exemplo, utilizamos água no processo de cocção, o que também contabiliza quando pensamos no consumo diário", explica a nutricionista Milana Dan, mestre em Ciência dos Alimentos pela Universidade de São Paulo (USP).

Cuidado com o excesso
É quase impossível acreditar que beber muita água possa trazer conseqüências desagradáveis ao organismo. Mas o abuso é capaz de causar até a morte. O principal problema do excesso é a chamada hiponatremia, que é o desequilíbrio na concentração de eletrólitos no sangue, principalmente o sódio. Nesse caso, acontece uma diluição dos sais existentes no sistema circulatório. A diluição exagerada desses eletrólitos pode fazer com que sua função seja reduzida. As conseqüências são dores de cabeça, mal-estar e até mesmo parada cardíaca, em razão da disfunção elétrica que compromete a contração do músculo cardíaco. Isso pode ser fatal mesmo em indivíduos saudáveis.

"Não se pode precisar ao certo uma quantidade limite para que não aja hiponatremia, pois isso varia de pessoa para pessoa. No entanto, é muito conhecido o caso de uma garota que morreu, nos EUA, após participar de uma competição em que era preciso beber a maior quantidade possível de água. A menina ingeriu seis litros e horas depois morreu", exemplifica Milana. Por mais que pareça chocante, a história também andou acontecendo com alguns atletas, durante maratonas, quando ingeriam uma alta quantidade de água com o intuito de não desidratar.

Rins a todo vapor
Ingerir líquido além do limite dos rins também pode ser um problema. Esse órgão tem a capacidade de regular o quanto ele pode - ou não - excretar água na urina. A função do rim é regular a quantidade de água corporal que o indivíduo possui, assim como do sódio, potássio e outras substâncias. É ele quem faz o ajuste fino daquilo que temos no sangue: expele os excessos e armazena os nutrientes importantes.

Por exemplo, quando dormimos, passamos um período médio de oito horas sem nos hidratar, isso significa que é hora de o rim poupar água. Por isso, quando acordamos, nossa urina está bem escura. "Isso é sinal de um rim normal, pois durante a noite houve a tendência para a desidratação e o rim absorveu a maior quantidade de água que pôde, para poupá-la. Ou seja, ele jogou as impurezas no menor nível de água possível", explica Márcio Dantas, professor doutor da divisão de Nefrologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP).

Segundo Dantas, não há uma sinalização muito clara de quando a pessoa está hiper-hidratada, mas o rim consegue diluir a urina e jogar a água fora até um limite máximo de 10 a 14 litros por dia. "Ingerir acima dessa marca pode causar problemas. No entanto, esse valor pode variar de pessoa para pessoa", afirma.

Isso significa que, se você quiser continuar tomando dois litros de água diários, para o seu rim, não há problema algum. No entanto, é preciso ficar atento, pois o hábito pode não ser uma simples mania, ou crença nas pesquisas passadas. Pessoas que sentem muita sede podem ser portadoras de diabetes. "O próprio rim doente perde a capacidade de concentrar a urina, então, a pessoa urina cerca de quatro litros por dia - e sente sede para isso -, e, embora ela ache que está tudo bem, porque a urina está clarinha, isso pode ser reflexo de uma doença renal", avalia Dantas.

Quem ingere quantidades exorbitantes de água não sobrecarrega o rim, mas faz com que ele não consiga atender à demanda. Isso faz com que a pessoa acumule água no corpo e dilua uma série de substâncias que estão no sangue, e a principal delas é o sódio. "Com o sódio abaixo do limite, o sistema nervoso central é afetado e a pessoa pode ter problemas de confusão mental, náuseas, crises convulsivas e pode caminhar para edemas cerebrais, coma e morte", afirma o professor.



SÓLIDOS CHEIOS DE ÁGUA
A Universidade de São Paulo (USP) possui um Projeto Integrado de Composição de Alimentos, que é coordenado pelo departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas. Lá, é possível verificar toda a composição dos alimentos listados. VivaSaúde foi checar quanto há de água em alguns alimentos que comemos diariamente.




Quem pode mais
Não existe um biótipo que necessite mais de água que outro. Na verdade, o que ocorre é que algumas pessoas - devidamente orientadas pelos médicos - precisam realmente ingerir mais líquidos que outras.

Segundo o professor José Abrão Cardeal da Costa, também da divisão de Nefrologia, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, pessoas com cálculos renais devem manter um volume urinário de dois a três litros por dia para prevenir a formação dos cálculos.

Portadores de nefropatias perdedoras de sal também precisam urinar mais, às vezes marcas superiores a quatro litros diários. "Quem tem diabetes insipidus central ou nefrogênico (genético ou adquirido) precisa manter volume urinário de até cinco litros", explica Costa.

Portanto, se você não faz parte dessa turma, esqueça tudo o que já ouviu falar sobre o consumo de água. A pele não vai ficar mais bonita e você não vai emagrecer apenas ao tomar os dois litros diários dessa bebida.

Texto de Luciana Fuoco e Yara Achôa, 
Fonte: revista viva saude http://revistavivasaude.uol.com.br/Edicoes/65/artigo99809-1.asp



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